Infraestrutura exige previsibilidade, planejamento e contratos modernos
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O Brasil vive um momento decisivo para a infraestrutura. Depois de um longo período de desinvestimento, em que o volume aplicado no setor não era suficiente sequer para compensar a depreciação dos ativos existentes, O Brasil vive um momento decisivo para a infraestrutura. Depois de um longo período de desinvestimento, em que o volume aplicado no setor não era suficiente sequer para compensar a depreciação dos ativos existentes.

Por *Bruno Ligório
Presidente do SICEPOT-MG
O Brasil vive um momento decisivo para a infraestrutura. Depois de um longo período de desinvestimento, em que o volume aplicado no setor não era suficiente sequer para compensar a depreciação dos ativos existentes, começamos a enxergar uma mudança de ciclo. Em 2025, os investimentos em infraestrutura alcançaram cerca de 3% do PIB, um sinal importante de retomada e uma demonstração de que o país começa a reconstruir sua capacidade de investimento. Esse avanço, no entanto, ainda precisa ganhar escala. O grande desafio é fazer com que os investimentos ultrapassem 4% do PIB, patamar necessário para que o Brasil consiga modernizar sua infraestrutura, reduzir gargalos históricos, melhorar sua competitividade e sustentar um ciclo consistente de desenvolvimento. Para isso, não basta ter bons projetos. É preciso planejamento, continuidade, segurança jurídica e, sobretudo, previsibilidade.
A previsibilidade é hoje uma das principais condições para que o setor produtivo possa responder à altura das oportunidades que se apresentam. Infraestrutura não se faz com improviso. As empresas precisam investir em máquinas, tecnologia, capital humano e estrutura operacional. Esses investimentos exigem confiança no futuro, carteira de obras estruturada e clareza sobre a continuidade dos projetos. Sem previsibilidade, o setor perde capacidade de investir; e, quando o setor perde capacidade de investir, o país perde capacidade de transformar projetos em obras.
Em Minas Gerais, esse debate ganha relevância ainda maior. O Estado vive um momento singular, com uma carteira robusta de projetos rodoviários. São 7 concessões estaduais e 11 concessões federais, em sua maioria ainda em estágio inicial, com previsão de investimentos entre R$ 80 bilhões e R$ 100 bilhões em capex. Desse total, cerca de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões devem ser aplicados nos próximos 5, 6 ou 7 anos, o que pode representar mais de R$ 10 bilhões por ano em investimentos em rodovias.
A dimensão desse impacto para a economia mineira ainda não é plenamente conhecida, mas certamente será expressiva. Basta olhar para o histórico recente: nos últimos cinco anos, o investimento público médio em rodovias, considerando órgãos como DER-MG e DNIT, ficou em torno de R$ 2 bilhões por ano. Ou seja, o volume previsto nas concessões representa um salto muito relevante e, em muitos casos, equivaleria a décadas de investimento público para alcançar o mesmo patamar. É justamente por isso que as concessões devem ser compreendidas como parte essencial de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento. Elas têm papel decisivo para acelerar investimentos, melhorar a qualidade da malha, ampliar a segurança e reduzir custos logísticos. Mas é importante reconhece
Mesmo considerando os 18 projetos de concessão em Minas Gerais, somando estaduais e federais, estamos falando de aproximadamente 22% da malha pavimentada. A pergunta que precisa orientar a política pública é: como cuidar dos outros 78%? Essa questão mostra que o investimento privado e o investimento público não competem entre si; eles se complementam. As concessões precisam caminhar ao lado de uma política consistente de manutenção, conservação e recuperação das estradas que permanecerão sob responsabilidade do poder público. Manter rodovias em boas condições não é despesa: é investimento. Reduz custos logísticos, melhora a segurança, diminui acidentes, preserva vidas e contribui diretamente para a competitividade da economia.
Além de ampliar e qualificar os investimentos, precisamos também melhorar a forma como comunicamos esse tema à sociedade. Em Minas Gerais, ainda existe muita resistência ao debate sobre pedágio, muitas vezes alimentada por uma visão simplificada ou populista. É preciso mostrar que uma rodovia bem mantida gera valor para toda a cadeia produtiva e para a população.
O exemplo de São Paulo ajuda a compreender esse impacto. O estado tem cerca de 45% da malha estadual concedida há mais de 20 anos, e os estudos indicam que os municípios cortados por rodovias concedidas cresceram acima daqueles que não contam com esse tipo de infraestrutura. Uma boa manutenção da malha viária pode reduzir em até 32% o custo de transporte, o que impacta diretamente a atividade produtiva, a atração de investimentos, a geração de empregos e o desenvolvimento regional.Portanto, o debate não pode se limitar ao custo imediato da tarifa. Ele precisa considerar o custo total de uma rodovia mal conservada: mais acidentes, mais tempo de deslocamento, mais consumo de combustível, mais manutenção de veículos, mais perdas logísticas e menor competitividade. Quando a infraestrutura funciona, toda a economia ganha.
Outro ponto essencial para esse novo ciclo é a modernização da gestão contratual. O setor da construção pesada atua tanto em obras concedidas quanto em obras públicas, e em ambos os casos é fundamental que os contratos tenham mecanismos mais ágeis e modernos de adaptação à realidade. Vivemos em um mundo sujeito a instabilidades geopolíticas, guerras, oscilações de câmbio, variações no preço de insumos e rupturas nas cadeias de fornecimento. Não é possível tratar contratos de longo prazo como documentos rígidos, incapazes de responder a mudanças profundas de cenário. Um exemplo recente é o aumento expressivo do custo dos materiais betuminosos e do asfalto, que já acumulou alta de cerca de 42% neste ano. Quando uma variação dessa magnitude ocorre, é preciso haver ferramentas ágeis de reequilíbrio contratual, capazes de garantir a continuidade das obras e preservar a capacidade de execução das empresas. Caso contrário, o risco é paralisar projetos, comprometer cronogramas e gerar prejuízos para toda a sociedade.
Essa necessidade de modernização vale também para as concessões de longo prazo. Contratos de 30 anos precisam prever mecanismos de atualização, revisão e adaptação. Há contratos antigos que, em determinado momento, chegaram a prever obrigações como a instalação de orelhões a cada certa distância — algo que fazia sentido em outro contexto, mas que hoje perdeu completamente a utilidade. Esse exemplo mostra que contratos de infraestrutura precisam ser vivos, transparentes e capazes de acompanhar a evolução tecnológica, econômica e social. Modernizar contratos não significa abrir mão de controle, responsabilidade ou transparência. Ao contrário: significa criar instrumentos mais eficientes para que as obras aconteçam, os investimentos sejam preservados, os riscos sejam tratados de forma adequada e o interesse público seja atendido. Essa discussão precisa amadurecer, sempre com diálogo, equilíbrio e segurança para todas as partes envolvidas.
Temos desafios nas obras públicas, na continuidade dos projetos, na gestão dos contratos e na formatação das contratações. Mas também temos uma oportunidade histórica de reposicionar Minas Gerais e o Brasil em um novo patamar de infraestrutura. O setor está disposto a contribuir com esse processo. O SICEPOT-MG representa mais de 230 empresas associadas e reúne uma experiência prática acumulada em obras, contratos, gestão, planejamento e execução. Estamos à disposição do poder público, dos investidores e da sociedade para dialogar, apontar gargalos, propor soluções e colaborar na construção de modelos mais eficientes.
Para aproveitar estas oportunidades, precisamos resgatar a valorização da engenharia, fortalecer o planejamento, garantir previsibilidade, combinar recursos públicos e privados, comunicar melhor os benefícios dos investimentos e modernizar os instrumentos contratuais. Infraestrutura é base para o crescimento. É o que reduz custos, salva vidas, integra regiões, atrai investimentos e melhora a vida das pessoas.
O momento é de diálogo, responsabilidade e ação. E o setor da construção pesada está pronto para fazer a sua parte. Fonte: SICEPOT-MG




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