Reparo dos estragos das chuvas de janeiro nas estradas de Minas ainda levará quatro meses

As tempestades que assolaram Minas Gerais no início deste ano seguirão causando dor de cabeça por mais alguns meses no Estado que possui a maior malha rodoviária do país.


Foto: Hoje em Dia


As tempestades que assolaram Minas Gerais no início deste ano seguirão causando dor de cabeça por mais alguns meses no Estado que possui a maior malha rodoviária do país. Só em janeiro, o Departamento de Edificações e Estradas de Rodagem (DER-MG) atendeu mais de 700 ocorrências nas rodovias mineiras por conta das chuvas.


Com estragos de diferentes proporções, a previsão para que as estradas voltem a funcionar normalmente é de cerca de quatro meses. O cálculo foi feito pelo vice-diretor geral do DER-MG, Matheus Novais, em entrevista ao Hoje em Dia.


"É uma situação atípica porque em um passado recente a gente não teve um índice pluviométrico tão alto. O desafio é atacar vários problemas de forma simultânea. De fato, os números são grandes e a gente ainda tem algumas dificuldades. Na maioria dos pontos, a gente vai ter um prazo máximo de três, quatro meses para a solução definitiva", afirma.


Novais explica que o tempo de conclusão das obras é influenciado pela necessidade de análise específica de cada tipo de dano estrutural causado pelas chuvas e que o estudo para realizar o reparo adequado também pode demorar.


"Cada ponto é uma questão diferente e envolve uma solução de engenharia diferente. Por exemplo, temos uma situação na BR-367 por conta de um problema estrutural de uma ponte. A estratégia deve ser específica para esse caso. A solução definitiva ainda demora um pouco, porque a solução para uma ponte não é algo simples", comenta.


O vice-diretor geral do DER-MG também cita a burocracia do serviço público como parte da demora na conclusão das obras. A opinião é corroborada pelo presidente do Sindicato da Indústria da Construção Pesada no Estado de Minas Gerais (Sicepot-MG), João Jacques Viana Vaz.


"O tempo para finalização das obras depende da agilidade de cada prefeitura ou do Estado, conforme o tipo da obra, para atender as exigências legais da Lei de Licitações e dos órgãos de controle. A burocracia impede a agilidade", argumenta Vaz.


Enquanto as autoridades e empresas competentes avançam com os trâmites legais e técnicos das obras, as estradas em más condições, com interdições parciais ou completas, afetam o cotidiano de moradores de Minas e até de outros estados.


Com mais de 31 mil km de rodovias federais e estaduais, Minas depende das vias terrestres para escoamento da produção e abastecimento das cidades. Em entrevista ao Hoje em Dia, o diretor do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais (Setcemg), Ulisses Martins, estimou um aumento no valor final dos produtos provocado pelos danos causados pelas chuvas nas estradas.


"Sabemos que tem trechos que demoram dois, três, quatro meses para voltar à normalidade. Nesses casos, há uma negociação para o futuro e cada tipo de atraso e mercadoria interfere diretamente no preço do frete. Em casos análogos ao das chuvas deste ano, a estimativa é de ocorra uma variação de até 15% em aumento direto", diz o diretor do Setcemg.


CHUVAS E PLANEJAMENTO

Janeiro terminou com 48.927 pessoas desalojadas por conta das chuvas em Minas, de acordo com a Defesa Civil do Estado. O acumulado de precipitações ultrapassou a média histórica do período, que é um fator levado em conta no planejamento de grandes obras de construção civil.


"Todos os projetos dessas intervenções que o DER faz passam por um tipo de estudo hidrológico. Principalmente nas obras de recuperação de pontes e viadutos, esse estudo hidrológico deve ser muito bem realizado. A análise varia de projeto para projeto: o tempo de recorrência de evento climático extremo, como grandes chuvas, sempre é considerado tendo em vista a especificidade de cada obra", afirma Matheus Novais, vice-diretor geral do DER-MG.


Segundo o vice-presidente técnico do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia (Ibape), Clemenceau Chiabi, todas as estruturas são construídas e mantidas a partir de um dimensionamento que considera uma média histórica de eventos climáticos, incluindo chuvas.


"As obras são calculadas para suportar quantidades de chuvas de acordo com uma média de 20, 30 anos ou uma chuva centenária. Então, quando acontece uma chuva com frequência e intensidade que não acontecia há muito tempo, existe a chance de a estrutura ceder. É um risco previsto", afirma o engenheiro.


Chiabi esclarece que isso não significa atestar a normalidade de acidentes como desabamento de pontes ou deslizamento de encostas. A consideração do risco de eventos climáticos extremos serve como um alerta a quem planeja passar por essas estruturas em períodos de fortes chuvas. Como fevereiro também começou chuvoso em Minas, o aviso segue importante.


"Eu recomendo que as pessoas evitem dirigir durante as chuvas. Que busquem informações sobre a intensidade da tempestade, se em um dia estiver chovendo mais que o previsto para 10 dias, por exemplo, evite esse período. É importante também tomar cuidado com rotas alternativas, as estradas secundárias não costumam ter boa manutenção e são planejadas para fluxos muito pequenos", adverte CHiabi.


De acordo com o vice-diretor geral do DER-MG, as chuvas de 2022 já serão contabilizadas nas obras de reparo das estradas. Portanto, levarão em conta um registro de grande volume de chuvas.


"Os estudos hidrológicos sempre consideram o histórico recente também. A gente sempre trabalha com as ações corretivas, mas também com as ações preventivas. Não podemos só recuperar, mas fazer uma revisão que impeça que novos problemas surjam nos próximos anos", afirma.


Para Clemenceau Chiabi, as chuvas encontram em Minas um cenário potencializador de danos estruturais. O engenheiro afirma que o relevo do Estado apresenta características que devem ser levadas em consideração nas obras de restauração de estradas, pontes e demais estruturas de grande porte.


"Não só as declividades, mas as variedades de solo são um fator dificultador em Minas. A presença de muitos rios também aumenta a chance de alagamentos e se tivermos períodos de pluviometria alta, como a desse ano, precisamos nos preparar para uma nova realidade. Tudo em engenharia tem jeito, mas também tem um custo. É preciso se mobilizar", conclui.


De acordo com o vice-diretor geral do DER, o plano de recuperação do governo estadual prevê um recurso de cerca de R$ 113 milhões para investimento em obras de mitigação do efeito das chuvas na malha rodoviária mineira.


Fonte: Hoje em Dia